Deixou-se embalar nos braços de uma mulher que foi, durante aquele dia em particular, uma pessoa que esteve consigo, que gostou de estar consigo, que o amou, mesmo sabendo quem ele era.

6 de Maio de 1938.
Roma está toda engalanada e em festa para receber Adolf Hitler. Há alegria no ar. As pessoas estão contentes. Todos os romanos se aprontam, vestem as roupas domingueiras, as fardas militares e militarizadas, as Camisas Negras, pegam em bandeirinhas e vão, em família, para a rua gritar alto Bem-Vindo! ao Führer de visita ao Duce. As botas cardadas que se preparam para esmagar a Europa dançam ao som das marchas militares e dos discursos galvanizadores. E os romanos em festa. Todos? Não, todos não. Há duas almas perdidas em casa, guardadas por um anjo negro da delação. Sophia Loren porque tem que fazer a lida da casa e preparar o almoço para a sua família numerosa cheia de filhos como manda a boa ideologia fascista. Marcello Mastroianni porque tem cartas para escrever e despachar enquanto faz a mala que chegou a hora da partida para o exílio. E Françoise Berd, a porteira de bigode, que tem um edifício e a honra das romanas para cuidar com todo o zelo do mundo e o olho do Estado.
Esta é, portanto, a crónica de um dia festivo.
Mas não.

Quer dizer, é a crónica de um dia de festividades romanas porque acompanhamos as cerimónias oficiais da visita de Hitler a Itália, primeiro através dos jornais de actualidades, que passavam nas salas de cinema antes das sessões cinematográficas, e depois através da rádio, sempre presente no edifício – é uma personagem constante e omnipresente –, e que nos vai relatando a verdadeira visita de Hitler a Itália enquanto mergulhamos fundo nesta estória muito particular da simples vida de Antonietta Taberi (Sophia Loren) e Gabrielle (Marcello Mastroianni).
Mas não só.

Porque é também, e ao mesmo tempo, um dia de aprendizagem, de conhecimento, de tristeza e de partida.
Aprendizagem porque ensina a Antonietta Taberi que a vida é muito mais que as paredes de sua casa, as ordens e desejos do seu marido e as necessidades diárias dos seus filhos. Ensina-lhe que a vida é algo de muito mais complexo do que a ideologia fascista desejaria que fosse. Que há gente diferente. Que há gente cujos padrões não são os mesmos desenhados no interior da ideologia. Mas que não deixam de ser padrões humanos. De gente de carne e osso. Que come e respira como todos os outros. Como nós, afinal.
Conhecimento porque abre portas e janelas a quem desconhece a sua existência ou, no limite, julgaria que estavam encerradas. Gabrielle passa para as mãos de Antonietta Os Três Mosqueteiros, que afinal são quatro, e que a faz sentar-se, em casa, ao final de um dia de trabalho árduo, e enquanto o marido a aguarda na cama, pronto para satisfazer os seus desejos de macho, pegar no livro e começar a ler as aventuras de D’Artagnan, e evadir-se, por momentos, da vida miserável que leva, diariamente, para cuidar de toda a gente menos de si.

O mesmo Gabrielle, homossexual, que acaba por conhecer o amor de uma mulher nos braços e corpo de Antonietta, ansiosos, ambos, por se sentirem amados, sem compromissos nem obrigações, sem ordens ou rotinas diárias que retiram todo o sabor a uma vida que já a pouco, ou nada, sabe. Claro que para Antonietta o passo é maior e representa mais. Também mais perigoso. Talvez por isso, muito mais saboroso. Antonietta tem de ignorar um marido, meia-dúzia de filhos, uma carga social de respeito (que é muito bonitinho!), Deus, Jesus Cristo, a Igreja, o Papa e todo o peso de uma tradição de honra, obediência e anulação. Para Gabrielle há, acima de tudo, o peso da despedida por amar o proibido – Gabrielle era locutor na Rádio Nacional, afastado por ser homossexual e anti-fascista num período muito complicado de crescimento da Itália extremista no mundo, à beira da Segunda Guerra Mundial – e por se deixar embalar nos braços de uma mulher que não sendo o seu desejo maior e primário, foi, durante aquele dia festivo, aquele dia em particular, naquele dia inesquecível, uma pessoa que esteve consigo, que gostou de estar consigo, que o amou, mesmo sabendo quem ele era, o que ele era, e vendo-o bem para além da condição de pária social pelos códigos vigentes de uma Itália onde um homem para o ser tinha de ser marido/amante, pai e soldado. Tudo aquilo que ele não era. Que não queria ser.
Tristeza porque nos fala de despedidas. Mas também, e acima de tudo, tristeza porque nos fala da merda que o Homem é para os outros homens, da superioridade de uns sobre outros e das ideias incutidas à força da coronhada ou da bala.

História muito actual – quem diria?! –, Um Dia Inesquecível conta a estória banal de duas pessoas banais numa época de extremos em que o homem luta contra o homem, em que as razões de um levam a matar outro e o pensamento tende a ser igualitário sob pena de repercussões.
Este torna-se um filme obrigatório para perceber que, quando perguntamos Como foi possível?, olhamos para o lado, para as capas dos jornais e revistas, para as notícias nos alinhamentos dos telejornais das televisões e vermos como o tempo verbal foi actualizado para Como é possível? Como é possível, hoje? Com tanta informação, conhecimento, estudo? Como é possível a ignorância? O ódio? O desamor? A morte?

Ettore Scola, realizador híper-conhecido por duas obras exponenciais na história do cinema: Feios, Porcos e Maus e O Baile, que é conhecido por ter feito muitos filmes de comédia satírica de pendor muito popular, mesmo que penduradas em figuras como Marcello Mastroianni e Monica Vitti, tem, neste Um Dia Inesquecível, a doçura de um olhar que o torna uma estória de amor belíssima, mesmo que trágica, e um retrato impiedoso para com uma Itália que, hoje, volta a fazer das suas e a fechar a porta da rua a quem vem perseguido pela fome, pela guerra e pela morte.
A História repete-se. A História aprende-se. E o Homem só é burro porque quer. E porque não está para se chatear. Sex, drugs and rock and roll e o resto que se foda.

Mas, afinal, que Dia Inesquecível é este?
Não é Um Dia Inesquecível, são vários.
Inesquecível dia em que alguém vê Adolf Hitler acenar à multidão.
Inesquecível dia em que Hitler e o Duce se cumprimentam e se mostram duas faces da mesma moeda.
Inesquecível dia em que se inicia uma nova era na Europa. Mais musculada.
Inesquecível dia em que o povo ainda pode ir à rua em clima de festa, enganado pelas visões de grandeza de gente pequena – mais tarde, as saídas à rua, em Roma, terminam de forma trágica – é ver Roma, Cidade Aberta de Roberto Rossellini.
Inesquecível dia em que uma dona de casa conhece um horizonte sem limites. E o amor. Finalmente o amor.
Inesquecível dia em que um homossexual encontra abrigo contra o horror de quem não compreende o diferente.
Inesquecível dia em que Ettore Scola se desvia das suas comédias-satíricas de pendor popularucho para realizar esta comédia-dramática.
Inesquecível dia em que vejo Sophia Loren, quarenta e três anos, belíssima, mesmo debaixo dos trapos de mulher-doméstica, a eterna bata da mulher que trabalha a casa-pouso do marido e dos filhos, mulher despenteada, que tenta apanhar a madeixa que teima em tombar, sem uma cor no rosto, nos lábios, nas unhas. Mas acima de tudo, Sophia Loren, e uns olhos de mulher para a eternidade.
Inesquecível dia em que vi este filme pela primeira vez.

Um Dia Inesquecível juntou Ettore Scola, Sophia Loren e Marcello Mastoianni (nomeado para o Oscar de Melhor Actor, num filme também nomeado para Melhor Filme em Língua Estrangeira) num dos mais belos momentos do cinema e que haveria de ganhar o Globo de Ouro e o César para o Melhor Filme em Língua Estrangeira, para além de uma série de prémios que seria fastidioso estar aqui a enumerar.
Um filme que urge descobrir.

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