como a vida seria muito mais miserável sem os filmes da minha vida: Esplendor na Relva de Elia Kazan (1961)

Esplendor na Relva é por ventura o filme mais bonito de Elia Kazan, só por ele merecia figurar com relevo na história do cinema

Este filme de Elia Kazan é uma ode ao amor adolescente que perde as ilusões à entrada da idade adulta. Mas de todos os quadros que compõem a estória, é precisamente o momento em que as personagens já não são adolescentes, o momento em que já adultos conseguem aguentar o confronto que os perdeu, último capítulo do filme, que serve para justificar a estória, o filme, as personagens e este texto.

Dean, regressada do hospital-psiquiátrico, em véspera de casamento, visita Bud, já casado, já pai, já chefe de família e agricultor de mãos calejadas, restos de uma vida cheia de posses perdidas no crash bolsista de 1929. Mas este é Bud. O verdadeiro Bud. Um Bud que Dean talvez nunca tenha visto, mesmo que Bud fosse o amor de juventude de Dean.
Dean e Bud ficam frente-a-frente. E sobrevivem ao reencontro. Aparentemente.
Ela parte com as amigas, em direcção ao seu futuro, ao seu casamento, a uma nova vida. Ele fica por ali depois de convidar as amigas, não Dean, para virem de novo a casa dele, dele e da mulher, dele da mulher e do filho, com tempo, com tempo para falarem do passado e lembrarem os bons momentos de quando eram mais novos. Lembram-se?
O que será da vida deles os dois depois deste reencontro? Depois de ficarem cada um para seu lado? Depois de decidirem que, afinal, estão ambos bem, prontos a abraçar um futuro em que não contarão um com o outro?

Rebobinemos.
Dean (Natalie Wood) e Bud (Warren Beatty) são o casalinho da escola. Estamos nos anos ’20, no início do século XX. Dean é uma rapariga frágil, filha de comerciantes. Bud é a estrela da escola, bonito, com pinta, multi-desportista e filho da família mais poderosa da cidade.
Estamos no Kansas, no coração geográfico da América, uma América feita de sonhos e de petróleo. Ainda não houve a Grande Depressão, nem a Quinta-feira Negra, ainda não aconteceu o crash bolsista, as empresas ainda não foram à falência, os directores ainda não se suicidaram do alto dos seus enormes arranha-céus de sucesso e a vida corre serena.
A vida sorri. Mais a uns que a outros – não é sempre assim?
Dean e Bud, mesmo com a sua diferença social, são um casal apaixonado. Correm de mãos dadas e o sangue ruboriza-lhes as faces. São jovens. Têm o sangue quente. E o desejo à flor da pele. Demasiado à flor da pele.
Bud deseja Dean. Fisicamente. O corpo de Dean. O sexo de Dean. As promessas de Dean. Os beijos não o satisfazem. Quer mais. Um homem é um homem, caramba, e tem as suas necessidades. O pai aconselha-o a ir às putas. O médico não o ajuda muito mais. Mas Bud ama realmente Dean.
Dean também deseja Bud. Mas é uma rapariga. Uma rapariga numa época em que as raparigas não podiam ser mais que meninas. Preservar-se para o casamento. E mesmo aí, no casamento, só para procriar como lhe garante a sua própria mãe. Para cuidar dos filhos fruto do casamento, a sua razão de existir. Ensinadas a fechar as pernas aos avanços dos rapazes. Mesmo se o namorado. Especialmente se for o namorado. Os homens só querem uma coisa e, depois de a terem, perdem o interesse.
Mas há raparigas e raparigas. Há raparigas que são mais atrevidas que outras. Que guerreiam. Que usam todas as suas armas, o desejo alheio, o próprio, a vontade. Há raparigas que, às convenções, dizem nada. Não são más. Não são piores que as outras. São só diferentes. Não querem ficar presas em dogmas. Normas sociais. Regras castradoras. Em preces.
Dean é apanhada nesse torvelino. E dói tanto.
O clique dá-se quando, na sala de aula, e depois das dúvidas a atormentarem, tem de ler e analisar o poema de William Wordsworth, o poema da sua derrota (e no entanto, tão bonito),

“Apesar de a luminosidade
outrora tão brilhante
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
Do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás;
Na empatia primordial
que tendo sido sempre será;
Nos suaves pensamentos que nascem
do sofrimento humano;
Na fé que supera a morte,
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.”

(na tradução de Catarina Belo para o poema de William Wordsworth)

e encontra nele ecos da sua própria desfortuna, e sai disparada da sala de aula, envergonhada, triste, desesperada, á beira da hecatombe – hoje, provavelmente, teria sido um ataque de pânico.
No fundo, Bud e Dean são dois jovens perdidos num tempo que não era o deles, num tempo em que os pais definiam as balizas morais, profissionais, amorosas e o caminho do amanhã dos filhos. Um tempo fora do tempo visto à distância da actualidade.
No início do filme estamos numa noite de amor entre os dois jovens dentro do carro – algo mais americano? Mas um amor casto, tendo, como pano de fundo, umas quedas de água que irão regressar mais tarde no momento de loucura de Dean. Esta queda de água representa todo o erotismo e desejo sexual que podia estar a rebentar naquele casal, mas que as convenções, os pais e o respeitinho, que é muito bonito, castram. Não é por acaso que Dean, finalmente e em último recurso, quando parece chegar ao fim e nada mais há a fazer que não deixar a loucura romper com os costumes e os limites, é ali, naquela água, naquelas quedas de água, que Dean se refugia, mergulhando nas suas águas rápidas, desesperadas e retemperadoras à procura, à procura de quê?, à procura de uma fuga.
Estão, eles os jovens, a tentar sobreviver ao conflito de gerações. A uma luta de jovens turcos. A uma guerra que têm de travar contra os velhos do restelo, para quem a mudança é uma doença, um estigma, um mal.
Mas os pais não são culpados. Nem aqui se pretende apontar culpas. Não é esse o caminho do filme, da estória. Aliás, nesta estória só há perdedores. Mais ou menos, toda a gente perde neste Esplendor na Relva, brilhantemente representado por Natalie Wood e Warren Beatty.

Regressemos ao início. O que fica então deste desesperado e poético Esplendor na Relva? Uma grande nostalgia dos tempos inocentes da juventude que acabam submersos pela realidade cruel da vida adulta.
E com uma vontade de, como o protagonista de O Tambor de Gunter Grass, lançarmo-nos pelas escadas da cave abaixo para não crescermos mais e sermos jovens para todo o sempre.
Elia Kazan, o realizador, uma vítima da caça às bruxas do senador Joseph McCarthy, e que acabou por denunciar alguns dos seus colegas de trabalho como sendo ou tendo sido comunistas, o que levou a que alguns actores e cineastas não o aplaudissem quando recebeu, em 1999, um Oscar Honorário, assina aqui, em Esplendor na Relva, uma obra-prima que está para além da menoridade política a que o quiseram reduzir.
Esplendor na Relva é por ventura o seu filme mais bonito e, só por ele merecia figurar com relevo na história do cinema, mas o seu trabalho estende-se por mais de três décadas com obras-primas como Um Eléctrico Chamado Desejo, Viva Zapata!, Há Lodo no Cais, A Leste do Paraíso, América, América ou O Grande Magnate. E isto deve-lhe assegurar, com toda a certeza, um capítulo inteiro na grande história do cinema.