como a vida seria muito mais miserável sem os filmes da minha vida: O Rio Sagrado de Jean Renoir (1951)

Tudo isto vem de outro tempo. De outros tempos. Cinematográficos. Representativos. Literários. Políticos. Coloniais. De tempos com tempo. De tempos de memória. De memórias. Memórias da história e de estórias. Memórias afectivas.

Isto é uma história de e com sabor.

É uma história de sabor porque vem de longe, de outros tempos e lugares, de outras ideias e lutas e fundações, de outros temperos. E porque sabe àquilo que é desconhecido mas que nos explode de novidade no palato. A Índia que aqui nos é apresentada é terra da diferença, de calor, muito calor, de selva que pode ser terrível (David Lean também iria por aí em 1984 quando fez A Passage to India / Passagem para a Índia).

Mas é também, e essencialmente, uma estória de amor. De amores. De diferentes amores em diferentes condições: sociais, políticas, económicas. E é, também, e afinal, uma estória de iniciação. De passagem pela desilusão, pelo desencanto e pelas dores do crescimento na mutação para a idade adulta, uma idade já sem contemplações para com a poesia da vida, o sagrado da vida, a paixão da vida, a voragem mordaz da vida. Em outras latitudes e, consequentemente, com outras cores, outra luz, outros cheiros e, lá está, de novo, com outros sabores.

The River, cuja tradução portuguesa já desvenda, também, um pouco do espírito que está por trás desta iniciação à idade adulta numa outra cultura: o Sagrado. É o Rio Sagrado da tradução portuguesa que nos revela não só o sagrado que corre ao longo do Ganges, e das suas margens, e o poder e misticismo que este rio (The River), tem para a cultura hindu, mas não só, basta, como a todos estes estrangeiros, viverem-no, como o sagrado da vida que se cimenta, também ela, na morte. Na morte dos animais mas também dos que nos são queridos, do que nos dói mas também do que nos faz crescer. As lágrimas que vemos correr sublinham isso, a dor no crescimento e o sagrado da vida, mesmo quando na morte. E é à volta daquele rio que tudo acontece, que tudo se passa.

The River / O Rio Sagrado não é só um dos mais bonitos filmes (se não o mais bonito!) do autor de A Regra do Jogo, Jean Renoir, realizador, argumentista e actor, filho do pintor impressionista cujo nome herdou e a quem nada ficou a dever artisticamente. É, provavelmente, um dos maiores monumentos cinematográficos de sempre, ao lado de, uns poucos, que lhe podem fazer sombra. Porque pode não ter a monumentalidade, o suspense e o brilho de outras obras-primas do cinema, mas tem esta honestidade, clareza e poesia (que convivem!) que o tempo não mata. Não pode matar. Apura.

É que The River / O Rio Sagrado ainda tem a ingenuidade que nos transporta para o mundo dos sonhos, mesmo que feitos desta matéria-real com que as pessoas vivem a vida do dia-a-dia. Estamos num universo que nos poderia facilmente transportar para Mongo com o Flash Gordon, ou para África com o Tarzan ou ainda para a Rua Morgue, em Paris, com Edgar Allan Poe. Mas estamos aqui, nas margens reais do rio Ganges, estamos nas margens do Rio Sagrado, um dos maiores rios do mundo, caudaloso, extenso, rio que foi criando templos, cidades, impérios, nas suas margens, à sua beira, dando vida e levando morte à medida que furava mundo e ia por ali fora, refrescando um continente, dando abrigo à sua natureza. O Ganges, hoje um rio extremamente poluído, é testemunha do crescimento das famílias que alberga, mesmo as coloniais, mas é, também, responsável por tudo isso, pelo crescimento, pela vida, pela morte e, afina, por todas elas (famílias) estarem ali. Ali, nas suas margens.

No centro da estória, três raparigas, de idades muito próximas, que se apaixonam, pela primeira vez, pelo estrangeiro que chega lá de longe, da civilização, um jovem capitão, com uma perna de pau, que traz a diferença, a experiência, a novidade e desperta, ou acende, os desejos que se descobrem, pela primeira vez, naquelas raparigas tão diferentes – uma jovem rica, filha de industriais, habituada a ter tudo o que quer; uma jovem e apaixonada ávida leitora, filha da colonização inglesa; e uma jovem hindu, fruto da miscigenação, não muito habitual entre ingleses e indianos, e que resolve optar pelas raízes maternas, mesmo que sejam as que doem mais.

É numa das frases, mais ao menos a meio do filme, que se descobre, então, esta luta de amores entre as raparigas, no fundo, tão iguais como diferentes: “O meu primeiro beijo foi recebido por outra.” Mas, ao mesmo tempo, revela-nos também a linguagem de quem nos vem contar a história que vamos ouvir, história de altos e baixos, de descoberta e aprendizagem, de amor e morte. No fundo, e voltamos ao início, numa história que acaba por ser cíclica, às dores do crescimento, e ao nascimento da vida que se faz, contudo e também, à volta da morte. Porque, como se diz, outra vez, algures lá dentro do filme “Todos crescemos, quer queiramos ou não.” E mesmo na colónia, onde parecemos estar numas férias permanentes, o crescimento não para. A vida não para. O calor não para. A selva não para. Nada para.

As famílias vivem. Os contrastes acentuam-se. As personagens nascem, crescem e morrem e, lá pelo meio, vão fazendo algumas coisas.

Até parece que Jean Renoir fala de nós. Mesmo que lá longe, noutro mundo. Num mundo tão caudaloso como o rio que o alimenta.