Prémios Sophia 2018 na 1.ª pessoa

Depois de uma cerimónia inaugural em 2012 na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema onde foram premiados três vultos maiores do cinema nacional – António da Cunha Telles, Isabel Ruth e António de Macedo – a Academia Portuguesa de Cinema organizou pelo sexto ano a cerimónia de atribuição dos Sophia que visam destinguir o melhor do cinema nacional do ano transacto.

Do Teatro Nacional de São Carlos em Lisboa ao Salão Preto e Prata do Casino Estoril sem esquecer os quatro anos de Centro Cultural de Belém, este ano a noite começara com a premiação do melhor em formato curto: Joana Toste, Luís Costa e Carlos Conceição foram os nomes chamados ao palco para receberem os seus primeiros troféus com um conjunto de obras recentes mas assumidamente emblemáticas das suas (espero) promissoras carreiras sem esquecer o Sophia Estudante que premeia o trabalho de um novo realizador, caindo este ano a honra a um novo e igualmente promissor realizador na pessoa de Dinis Leal Machado.

Numa noite dominada pela longa-metragem São Jorge, de Marco Martins, receptáculo de sete troféus entre os quais os de Melhor Filme, Realizador, Actor para Nuno Lopes e Actor Secundário para José Raposo, foram curiosamente os troféus de Actor e Actriz Secundária para Isabel Abreu no filme Uma Vida à Espera, de Sérgio Graciano que mais se destacaram em palco. Abreu, destacado rosto de toda uma geração de actores que se afirmam não só no cinema como na televisão e no teatro, foi (é) o rosto de um filme independente que passara algo “anónimo” nas salas mas que vê aqui o reconhecimento pelos seus pares e a confirmação de que este cinema independente está vivo e de boa forma. Aliás, o sentimento deixado em sala com o seu discurso, bem como através da obra no qual fora premiada, confirma que não só o dito “cinema institucionalizado” tem hipótese de encontrar o seu reconhecimento. Como sua directa consequência permanece a questão… onde está então a visibilidade para estas obras que tantas e tantas vezes passa ao lado das salas e dos espectadores que não têm, portanto, hipótese de as ver?! É que mesmo que tenham exibição em algumas salas da capital, existe todo um país que nunca chega sequer a saber da sua existência… é imperativo para o bem do cinema português (principalmente daquele sem grandes ou nenhuns apoios) chegar ao seu público.

Mas foi o grande discurso de Nuno Lopes que ecoou no Salão Preto e Prata do Casino Estoril ao proferir aquele que foi o momento da noite: “A cultura é uma responsabilidade do Estado. (…) Um país sem cultura não é um país, é uma área mal ocupada” e a compreensão de que os negros anos da crise passaram mas que os seus efeitos ainda hoje se fazem sentir. E foi este o sentimento da noite. A percepção de que continua a existir a necessidade de uma parte mais interventiva (e pronta) por parte das autoridades governativas em conceder (os) subsídios para a criação desta Sétima Arte. Porque o cinema é uma forma de arte que perdura e que imortaliza para a eternidade um sentimento, a consciência de uma época ou, como disse a grande Maria do Céu Guerra durante a homenagem àqueles que partiram no último ano, é a forma máxima de registar um sorriso, um rosto, uma voz ou mesmo um olhar e todo aquele resultado final é fruto de várias dezenas de pessoas que estão por detrás da câmara que trabalharam para essa imortalização.

Finalmente, e depois dos três troféus para Peregrinação, de João Botelho – dois para a maquilhagem e caracterização e um para guarda-roupa -, do troféu de Melhor Actriz para Rita Blanco (infelizmente ausente) no filme Fátima, de João Canijo, dos dois para A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho – Argumento Adaptado e Montagem – e de um para Al Berto, de Vicente Alves do Ó – Som -, permanece a certeza de que os Sophia estão com vida, e que estão para durar, e que o cinema português se destaca com cada vez maior qualidade e reconhecimento.